Me chamo Agenor Aparecido Arruda, tenho 69 anos de idade, fui usineiro mecânico dos 15 até os 27 anos de idade, quando percebi que teria mais lucro com um boteco ao lado da fábrica onde eu trabalhava. Como naquela fábrica de ferro só as peças e máquinas, todos biritavam antes, nos intervalos e depois do serviço. O dono do bar onde bebíamos queria passar o ponto e eu resolvi comprar. Foi nesta época que conheci Luís Inácio.
Magro inchado, bigode esculachado, calça boca-de-sino, sempre sorridente, tinha uma curiosa dicção que parecia cobra sibilando, e um costume muito curioso: enquanto esperava sua vez de jogar aquele bilharzinho muito mambembe dele, ele gostava de enfiar o mindinho na orelha para ver se tinha cera. Quando tinha, ele comia. Quando não tinha, fazia cara de indignado e resmungava alguma coisa. Eu cheguei a ter pesadelos com aquela cena, com aquele mindinho.
Seu Luís gostava de apostar alto, e vivia dando um jeito para que fosse com o dinheiro dos outros. Nisso eu devo dizer que ele era muito bom. Com um discurso enjoativo e grudento que parecia melado de cana, convencia a todos, inclusive eu, a pagar fiado. Era bom de bico aquele sujeito.
Aquele beberrão tinha também uma estranha admiração por minha Brasília, que eu havia comprado a muitas prestações. Todo o inicio de expediente ele parava, olhava para aquele carro, suspirava. Nunca vi coisa igual, nem eu tinha tanto apreço assim. Várias vezes, quando Luís Inácio tomava umas a mais e sumia de vista, eu o encontrava abraçado à Brasília, como se estivesse tendo um caso de amor com a dita cuja. Era um sufoco para tirá-lo de lá, ele não queria deixá-la de jeito nenhum. Ficava correndo em volta da Brasília gritando “É minha! A Brasília é minha e ninguém me tira!” Um sufoco. Ele vivia me enchendo o saco querendo comprar a Brasília, chegou a oferecer a própria mulher no negócio. Nunca aceitei, cá entre nós, sua mulher não valia lá essas coisas.
Pois bem, numa noite de hora extra, o senhor Inácio, como de costume, no intervalo do serviço se aportou no boteco, já mamado. Queria ir para a segunda garrafa da quentinha, como gostava de chamar, ou saborosa, minha gostosa, pura-purinha, começando a falar cada vez mais alto a besteirada que sempre falava. Quando ele ficava daquele jeito, todo o pessoal em volta fazia uma roda em torno dele — e quanto mais juntava gente, mais ele se entusiasmava. Alguns até aplaudiam, era impressionante. Mas daí tinha que separar tudo, senão virava fuzuê. Aliás, admirava o gosto do seu Luis pela caninha. Ouvi dizer que ele hoje só quer saber dos vinhos daqueles castelos lá França, coisa de barão, mas tenho certeza que ele ainda gosta da cana. Por mais que pra falar a verdade nunca soube direito como ele chegou lá no alto, ele chegou. Luís Inácio é um sujeito que merece cana. Saúde, seu Luís!
Bom, eu já ia me perdendo na história. Então, naquela noite, ele queria ir para a segunda garrafa, mas, devendo desde o seu primeiro dia de trabalho, há mais de 2 meses, recusei:
— Seo Luís, enquanto o senhor não pagar a conta, nada feito.
— Cumpanhero, nós somos cumpadi, camaradas, colegas, unha e carne, amigos, meu irmão de sangue me sirva aê mais uma pro chegado aqui.
— Irmão de sangue? O senhor tem mais cachaça fiada nas veias do que sangue. Ou paga ou a coisa vai ficar feia pro seu lado.
— Que que é isso, cumpanhero! Me dá mais uma, seu desgraçado!
— Pague a conta. Agora.
— Já sei, vamos fazer uma aposta no bilhar.
— Aposta? Seo Inácio, o senhor não tem dinheiro algum para apostar! Já disse que não quero sua mulher!
— Cumpanhero, ‘xa comigo que eu tenho um plano. Eu aposto meu mindinho.
-- Seu mindinho, senhor Inácio?
-- Já pensei em tudo, companheiro, vamo todo mundo sair no lucro!
Pensei comigo que nada teria a perder: ele já estava completamente embriagado, e se eu não aceitasse a aposta ele ficaria a noite inteira me atazanando. Ao menos, com a aposta, eu sabia que se ele perdesse, no máximo ele sairia de fininho, como sempre fazia, e só reaparecia no dia seguinte como se nada tivesse acontecido, chamando quem fosse de mentiroso e ladrão quando cobrassem dele o pagamento das apostas e dividas.
— Tá certo, seo Luís. Que vença o melhor.
-- Então mais duas cana da brava, e pendura na minha!
Va lá, achei melhor deixar ele mais bêbado e aumentar minhas chances vencer a aposta. Enquanto eu enchia um copo americano com uma pinga de cabeça da braba de Piracicaba que eu tinha num corote, alguém já tinha arrumado as bolas na mesa. Era preciso ver a cara de felicidade que Luís Inácio fazia enquanto olhava o preciso líquido sair pela torneirinha e encher o copo. Ele lambia os beiços, “me dá logo companheiro, me dá logo isso aí!”, sempre dizia.
Ele apanhou o copo, virou tudo de uma vez só, depositou o copo na borda da mesa, tentou segurar o taco com firmeza, puxou-o para trás e... lá se foi o pano novinho da mesa e a bola branca na caçapa. Gargalhada geral no bar.
— Tão rindo do que? Vão ficar rindo, é? Vão ficar rindo, suas bichas? Então eu vou é resolver essa coisa que nem macho! Que nem macho, ouviram? Coisa que vocês nunca serão! Bando de viados!
O bar ficou um silência só. Luís Inácio bebeu num só gole a primeira cachaça que viu pela frente. Babando cachaça, se limpou com a manga da camisa e, cambaleando, atravessou a rua rapidamente até ser parado pelo muro da fábrica, de testa na parede. Com muita dificuldade, seu Luís, estatelado no chão, conseguiu sentar-se. Tirou do bolso um pouco de fumo e enrolou seu cigarro de palha. Procurou por uma caixa de fósforos no bolso, acendeu seu cigarro, deu uma tragada funda, resmungou alguma coisa e gritou para nós “Seus viados! Vocês vão ver o que eu sou capaz de fazer! Bando de boiolas!”.
Então ele acaba o cigarro, se levanta, joga a bituca no meio da rua, com raiva. Berra de novo “Covardes!” e atravessa o portão da fábrica. Todos nós corremos para ver o que ele faria. Alegando que estávamos preocupados com o senhor Luís, rapidamente convencemos o vigia, poderoso Waldemar, como o chamávamos, a nos deixar ir atrás dele. Lá fomos nós — e deu tempo de ver a barbaridade.
Ele estava parado olhando fixamente a prensa já ligada. De repente, enfia o mindinho na prensa. Clamp!, a prensa baixa e o senhor Luís começa a urrar. O sangue esguicha mais de dois metros deixando as máquinas e todos ao redor cobertos de sangue. Sua roupa foi ficando cada vez mais ensanguentada, um rastro de sangue tingia o chão da fábrica, enquanto ele zanzava descontroladamente.
Todos alí ficaram pasmos, enquanto o sangue não parava de esguichar, enquanto seu Luís berrava de dor, tentando estancar o sangue, que só piorava a situação, pois daí escorria tudo pelo seu braço e ia formando uma poça de sangue por onde quer que ele fosse. Alguém se recupera do susto e sai correndo procurar pelo vigia, que tinha telefone. Seu Luís não parou de berrar até que a ambulância chegou com um anestésico. Foi levado de maca ao hospital, e me lembro que ele falava ao socorrista: “Companheiro, você me salvou deste terrível acidente! Aquilo é uma fábrica de acidentes!”.
Fiquei duas semanas sem ver o senhor Inácio, até uma noite em que ele chegou no bar com uns sujeitos da pesada, me xingando de filho da puta, dizendo que eu o tinha forçado a meter o dedo na prensa, me acusando de extorsão, e dizendo que ia quebrar a Brasília. Não deu outra: primeiro amassaram a coitada com barras de ferro e depois botaram fogo. Ficou irreconhecivel, sem qualquer possibilidade de restauro.
Depois daquela madrugada nunca mais vi o senhor Luís no trabalho. Alguém me disse que ele recebeu uma bela indenização por causa do “acidente”, se aposentou, e até hoje recebe dinheiro do governo. A conta no meu boteco continua pendurada até hoje.
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